Entrar num museu e escolher uma obra. Só uma. Ficar o tempo que apetecer. Sair sem ter visto a exposição inteira. Parece pouco ambicioso? Talvez seja precisamente esse o interesse.
Habituámo-nos a pedir uma utilidade imediata às coisas. Um livro tem de ensinar, uma viagem tem de transformar, uma tarde tem de render. Até a beleza parece precisar de um certificado de benefício. Esta é uma proposta editorial mais simples: deixar algumas experiências existir sem uma apresentação de resultados.
Não é preciso saber a escola, o período ou o preço de leilão para começar a olhar. Pode reparar numa mão, numa cor, numa expressão que não entende. Pode não gostar. Pode mudar de opinião. A experiência não fica anulada por não vir acompanhada da interpretação certa.
E não tem de acontecer num museu pago nem numa capital. Um desenho num caderno, uma biblioteca, uma montra bem feita, uma canção ou um azulejo da rua também podem merecer atenção. Não estamos a equiparar tudo. Estamos a recusar a ideia de que a curiosidade só começa depois de comprar um bilhete.
Se quiser experimentar, escolha uma coisa a que normalmente passaria à frente. Dê-lhe uns minutos sem abrir outra janela. Não prometemos que isso cure o stress ou acrescente anos à vida. A proposta é outra: que aqueles minutos já sejam vida.




