Primeiro, acordar melhor. Depois, beber a coisa certa, caminhar a quantidade certa, trabalhar sem dispersar, comer sem falhar, descansar sem perder tempo. A certa altura, a promessa de bem-estar parece um segundo emprego. Com um chefe particularmente desagradável: nós próprios.

Esta edição parte de uma preferência, não de uma descoberta científica. Queremos uma vida em que cuidar de nós deixe espaço para viver. Uma mesa que não seja um exame. Um passeio que não seja apenas uma linha no gráfico. Uma noite que não comece com a obrigação de dormir perfeitamente.

Os números podem ajudar. As rotinas também. O problema começa quando passam de ferramentas a árbitros de todos os nossos dias. Uma pessoa não é um conjunto de indicadores à espera de melhoria. É também contradição, vontade, circunstância e, felizmente, algum disparate.

Não estamos a propor que se ignorem necessidades de saúde nem orientação profissional. Estamos a reclamar outra coisa: o direito a não transformar todos os prazeres em tarefas com objetivo. Há quem tenha pouco tempo, pouco dinheiro ou responsabilidades que não cabem num conselho elegante. Viver bem tem de admitir essas vidas.

Por isso, aqui cabem o movimento e a cadeira à sombra. O alimento e a conversa. A longevidade e a pergunta sobre o que queremos fazer com esse tempo. O nosso critério editorial é este: se uma ideia torna a vida apenas mais exigente, ainda nos deve uma explicação.