O convite pode ser assim: «Tenho sopa. Queres vir?» Não tem conceito, lista de harmonizações ou promessa de uma noite inesquecível. Tem uma cadeira disponível e uma pergunta que se responde com sim ou não.
Gostamos de uma mesa bonita. Mas uma mesa bonita não deveria ser uma condição para ter companhia. Quando receber pessoas passa a exigir uma produção, quem fica de fora pode ser precisamente quem queríamos ver. A fasquia sobe; o convite fica para outra semana.
Propomos uma pequena mudança de escala. Uma coisa para comer, água na mesa, o que já existe em casa. Perguntar antes por alergias ou restrições faz parte de receber; adivinhar a vida alimentar dos outros não. Quem quiser pode trazer qualquer coisa. Quem não puder, traz-se a si.
Também não é obrigatório transformar a refeição numa grande conversa. Há dias em que basta comentar um filme, rir de um detalhe ou ficar calado sem desconforto. Não precisamos de extrair uma aprendizagem de cada encontro para o considerar bem passado.
Isto é uma preferência sobre a forma de viver, não uma promessa clínica acerca de comer acompanhado. Há quem adore jantar sozinho, e há lugar para esse prazer. O que defendemos é menos cerimónia quando a cerimónia atrapalha. Às vezes, a melhor maneira de melhorar um jantar é deixar de tentar impressionar os convidados.



